Desapareceu

Foi numa das ruas do silencioso centro da cidade, na parede que alinhava o meu caminho, que a palavra apareceu pela primeira vez: DESAPARECEU. Naquele preciso momento ia com a humanidade na cabeça e na trágica comédia em que a mesma se tinha tornado, e não me detive mais que uns fugidios segundos, um mero reflexo instantâneo dos sentidos. Mas a palavra surgiu diante de mim logo a seguir, no chão, por entre um ligeiro espaço que distanciava dois postes de luz: DESAPARECEU. Parei de novo a contempla-la, perante os olhares de uma pessoa que circulava em passo acelerado e que me deu a sensação de querer interpelar-me senhor, por favor… Porém e sem uma justificação racional para o sucedido, decidi continuar o meu caminho. Atravessei o pequeno pátio do 13 que sempre cruzara sem parar, naquele momento estava recortado por sombras à sua volta e a luz do poente fazia ressaltar todos os ângulos e meandros, todos os cantos e rugosidades, todos os remansos de luz e de sombra, dando ao pequeno pátio uma vivacidade digna de um quadro. Passei depois pelo bairro do Avanças Grande, mas nada nem ninguém se via ou sentia. Aquele bairro nunca fora muito movimentado, mas havia quase sempre algum vizinho que regava as plantas, algum automóvel a ser polido de cima a baixo, ou até algum gato a investigar o misterioso e voraz rumo da natureza. Entretanto, do nada, uma notícia ecoava em tom dramático desde uma janela:

Hoje, um grupo de 60 políticos manifestou-se nas ruas da nossa cidade contra a persistente falta de apoio das Pessoas. Protestaram com cartazes, com sons de altifalantes, com gritos de revolta. Afirmavam não aguentar mais a pressão das Pessoas e que lutariam até ao fim pelo seus direitos que, segundo eles, levaram muito tempo a conquistar. De referir que a manifestação durou até ao início da noite momento no qual os protestos atingiram o seu ponto mais alto com os estadistas a queimarem caixotes do lixo, montras de lojas de marcas conhecidas e outros comportamentos violentos que colocaram em causa a Ordem. As brigadas políciais de intervenção rápida tiveram de usar a força, conseguindo, inclusive, deter algum dos membros prevaricadores

Enquanto terminava de ouvir a notícia, ali, dois passos mais à frente, encontrei a palavra; estava num sinal de aviso, deslocada e sem um aparente sentido, inscrevia-se com uma cor diferente. Mantinha o seu misterioso sentido: DESAPARECEU. Algo desta vez chamou-me a atenção, uma atracção hipnótica que a razão não explicava obrigando-me a deter por inteiro o corpo, o suficiente para observar a sua cor refulgente e as suas letras garrafais que definiam bem o seu aparente desígnio. Havia em mim um tom inquiridor e contraditório que ao mesmo tempo me incitava a admirar a palavra, mas também a julgar-me um louco com tal sonambulismo que trespassava os limites do real. A humanidade que de repente se tornou em algo difícil de habitar, demasiado absurda perante tudo aquilo que eu já tinha visto, a humanidade que na boca de muitos se tinha tornado num trapo velho de algo que se vende novo. Uma coisa muito gasta que sai da boca de alguém, quando a abre para dizer: A Humanidade!

Acabei por chegar ao meu destino: a estação de comboios. E a palavra apareceu diante dos meus olhos: DESAPARECEU. Obstinado, aproximei-me em passos lentos e perscrutadores antecipando-me ao tempo que ali podia chegar primeiro. Olhei-a gravemente como se fossem várias, e, ao ler todas ao mesmo tempo, sem que houvesse uma explicação plausível para o que ali acontecia, no meio da convulsão interior que me invadia, reconheci que a letra era minha.

Apanhei o comboio e nunca mais fui visto.

Publicado na edição número 17 da revista Sem Equívocos.

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