A poem of resistance / Um poema de resistência – Tara Skurtu

 

“A arte é o que resiste: ela resiste à morte, à servidão, à infâmia, à vergonha”

Gilles Deleuze

“Art is resistance: it resists death, slavery, infamy, shame”

Gilles Deleuze

 

No final de 2016 o governo romeno decidiu aprovar uma medida de emergência designada OUG 13, que se destacava pela despenalização da corrupção política e dos crimes de abuso de poder. Este ponto de inflexão na sua política interna causou o maior movimento de protesto da Roménia desde a queda do comunismo em 1989. Atenta a estes acontecimentos, a poeta americana Tara Skurtu escreveu Um poema de resistência”, que veio a tornar-se numa homenagem, não só ao povo romeno, mas também a todos os povos do mundo que sob o jugo de políticas vis lutam hoje contra uma silenciosa barbárie, uma nova psicopolítica que está a subverter a realidade e a recriar a corrente reaccionária que George Orwell e Aldous Huxley auguraram nas suas famigeradas distopias.

Pelo entusiasmo da sua fulgurante voz e sob a emergência de um tempo que considero ser o mais sombrio desde a Segunda Guerra Mundial, divulgo aqui a tradução que realizei do poema de Tara Skurtu para português e que foi publicado originalmente na 3ª edição da revista literária [sem] Equívocos.

 


At the end of 2016 the Romanian government decided to approve an emergency measure designated OUG 13, which stood out for the decriminalization of political corruption and crimes of abuse of power. This point of inflexion in its internal politics caused the biggest protest in Romania since the fall of communism in 1989. Concerned by these events, the American poet Tara Skurtu wrote A poem of resistance becoming a homage to the Romanians but also to other nations who, under the yoke of vile policies, are struggling today against a silent barbarism, a new psycho-politics that is subverting reality and creating the reactionary current that George Orwell and Aldous Huxley predicted in their famous dystopias.

Due to the enthusiasm of her poetic voice and under the emergency of a time that I consider to be the darkest since World War II, I have translated “A poem of resistance” by Tara Skurtu to Portuguese, published in the third edition of the literary magazine [sem] Equívocos.

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Um poema de resistência

Além do vidro, um ensanguentado rolo de gaze
desvela poesia tecida com arames
vertida do cabo de uma vassoura. Sozinho numa cela, um homem
talvez infligisse o Código Morse na sua coxa, alimentando
uma possível hipótese a outros homens daquele bloco.
Caminho na direcção da lúgubre cela de luliu Maniu´s
no chão, uma amassada malga de alumínio
e uma colher, um balde, um copo.
Uma cama sem colchão,
e um uniforme listrado em dobra no pé.
Numa cela ali está agora A Sala de Poesia-
Crepitação Morse através dos altifalantes,
fotos nas paredes com poemas sem nome:
Morrerei sem saber, sem morrer.
O homem que escreveu poemas em código
foi condenado à morte por tentar
obter assistência médica a um fugitivo
procurado pela Securitate. Onde, quem, porquê?
Penso na minha irmã, noutro continente
—cinco anos na maior prisão Americana
de máxima segurança para Mulheres
por “resistir à prisão com não-violência”,
como uma adolescente. Outros dois anos por
ofensas menores – agora órfã de Mãe
uma Mãe órfã de filha.
Entro na Cela Negra –
uma câmara de tortura. Grilhões amarrados
no chão de cimento. Todos os que lêem
o aviso na porta vão circulando.
Não devem avançar na loucura
(velada) uma loucura em grande escala. Numa prisão para Mulheres
fora de Boston, uma das minhas melhores amigas do liceu
foi atirada para uma solitária durante semanas,
logrou escrever o diagnóstico da loucura de Hamlet
metida num esconso;
iam levando-a ao desespero – a virtude da vontade.
Faz do louco o culpado e perturba a alma livre.
Ninguém me detém quando do quarto saio.
Sob o vergel, uma colina de goivos
cobre uma infame memória.
Entro pela sua porta de cimento.
Uma mesa oval feita de pedra como uma retina;
a sua superfície: água.
Cera de abelha
velas acesas na memória de alguém,
de alguém alguém, uma fâmula
na direcção de uma cruz que se abre no tecto.
Começou a chover.
Dou-me conta que soçobro
num sentimento para além dos limites
da racionalidade. Eu sei sem saber.
Doze velas pequenas alumiam a mesa de água.
Estive aqui tão só
que acendi só metade delas.
Por ninguém em particular.
Para ti, para ti, para ti.

 

A poem of resistance

Behind the glass, a bloodied roll of gauze
unravels poetry stitched with wires
shed from a broom. Alone in a cell, a man
would slap Morse code onto his thigh, feeding
possibility to the other men in the block.
I walk into Iuliu Maniu’s death cell.
On the floor, a dented aluminum bowl
and spoon, empty bucket, cup.
Cot without a mattress, striped
uniform draped at the foot.
One cell is now The Poetry Room—
Morse crackling through the speakers,
photographs of anonymous wall poems:
I will die without knowing, without dying.
The man who stitched poetry in code
was condemned to death for trying
to get medical attention for a fugitive
wanted by the Securitate. Where, who, why?
I think of my sister, on another continent
—five years in America’s largest
women’s maximum security
for “resisting arrest with nonviolence”
as a teenager. Another two years for
another minor offense—now a motherless
mother with a motherless child.
I enter The Black Cell—really,
a torture room. Shackles anchored
to the stone floor of a shoebox room
without windows. Everyone else who reads
the placard at the door keeps walking.
Madness in great ones must not
(unwatched) go. In a women’s prison
outside Boston, one of my best college
students, thrown into solitary for weeks,
managed to write a paper diagnosing
Hamlet’s madness in a hole
meant to drive her mad—and turned it
in on time. The virtue of will.
Make the mad guilty and appall the free.
No one stops me as I leave the room.
In the courtyard, a grassy hill bearing citrus
covers a domed memorial. I enter
through its concrete door.
A round stone table like a retina;
its surface: water. Beeswax
candles lit in memory of someone,
of someone’s someone, flame
toward an open cross in the ceiling.
It’s starting to rain. Drops tap the table.
I am becoming aware that I might be
falling into a love beyond the limits
of restraint. I know without knowing.
Twelve lit candles light the water table.
I’ve been here alone so long
I’ve lit at least half of them.
For no one in particular.
For you, and you, and you.

Tara Skurtu

Tradução [Inglês a Português]: Tiago Alves Costa

Translation [English to Portuguese]: Tiago Alves Costa

 

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5 Comments Add yours

  1. Alex Nogueira diz:

    Post muito bom, gostei do formato! E obrigado por me seguir também 😀

    Liked by 1 person

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