“Antes de me conhecerem, devem primeiro conhecer as minhas palavras”
I. Da Arquitetura Oblíqua
Uma “Pessoa-Estátua” observa a realidade estática de um mundo decaído num desconcerto –
uma ética (inumana) alicerçada numa arquitetura oblíqua
Esse “Eu-Estátua” – meramente contemplativo, é um ser desprovido da força necessária,
necessariamente morrente “de pasmo”
A imobilidade gera um aglomerado de gente inerte acomodada ao irreal atual
Uma sociedade de seres imóveis, cedendo seu movimento aos passos desviados, perpetuando
a indiferença, desaprendendo a HumanidadeAs estátuas, presas à pedra, imobilizadas no tempo, repetem, somente, a sincronia conforme
Uma “Pessoa-Só-Estátua” “é moralmente inaceitável, cientificamente imponderável,
humanamente impossível”.
O exercício do questionamento é, portanto, urgente e fundamental –
(“lembra-te / A paisagem há-de cansar-se de ser fotografada /A paisagem há-de ser
catástrofe/ e tornar-se numa fotografia/ do teu cansaço”).
II. Do Poeta-Não
O Poeta-Não liberta-se da inércia – “O poeta desloca-se/ confronta mil distâncias”
“Entre a altura e o movimento”, move-se, exercita-se, enfrenta-se, defronta-se –
“Fosse como eu próprio vou/ de frente para esta realidade percebida como imperfeita/ vivendo
este estado de coisíssima nenhuma de isto ainda poder ser”.
Confronta-se a imperfeição alterando a perspectiva (crítica) – exercitando o pensamento,
debatendo a razão, ousando a lucidez – (“Uma inefável sorte-tragédia, acertando com precisão
– ao lado”).
III. Da Indução
( “Sofre dos nervos/ sofre da calma/ sofre do mundo/ sofre do medo/ sofre da noite”)
Uma voz atrás da voz, espera a vez, esconde-se à escuta, onírica espreita – um sussurro vago,
uma minudência sonora
Vez e volta, tal “subvoz” subleva-se, acerca-se, cerca, bloqueia o pensamento e faz-se ouvir –
um grito rouco, um tumulto abrangente
Às vezes, uma voz por detrás da voz atrás, aproxima-se, arvora-se, transmuta-se, torna-se
própria
Várias vezes difusas outras vozes assomam – (in)coincidentes
As vozes suplicam o verso, rogam o ritmo de um compasso onírico, sua transmutação no
encadear da fala
Incrédulo, confuso, dividido, multipartido – incapaz, o homem protesta
Rodeado de vozes, receando tal multidão, “num estado incoerente de pânico”, o poeta escreve
(e “Zizek Vai Ao Ginásio”)
O verso torna-se um exercício necessário (à sanidade) quando o real (não simbólico) se abate
sobre nós.
IV. Ao Tiago (Um saltador em altura na vertigem /um canibal sem fome /uma pletórica fada?)
(Vozes em coro – “Nervos com calma, calma com Nervos”)
“Depois de várias tentativas de lhe curarem a humanidade”, o poeta sucumbiu à sua imprópria
negligência implodindo (“morre-se para dentro e por dentro”)
Um auto atentado perpetrado no seu impróprio interior (“enfim, congratulemos uma vez mais
o poeta – pelo seu desconhecimento absoluto”)
Este não é o “fim da literatura”, é uma rebelião (“há escritores que escrevem”. ponto)
Este é o sublimar de uma voz, consciente da incerteza do percurso e da urgência de o
percorrer (“Um mapa é um objecto que só alguém disciplinado na loucura podia ter pensado
em perder”)
Agora, Tiago, “…dirige-te no mais longe que de ti há quando sob todos os indícios madrugada
for” … “e volta para casa para repetires esse longo projeto de esbracejares na luz…”, “…como
se fossemos os únicos vivos dentro desta morte…”
Movido pela palavra movente, Tiago Alves Costa é uma Voz (extraordinária) que deve ser
escutada
*
Filipe Campos Melo, Nascido no Porto, Portugal. Impróprio Poeta, dele se diz cedo ter cedido ao mundo as madrugadas e à Poesia as sombras. Percorreu longas noites na Universidade de Coimbra. Consta ter editado e de tudo o mais se desconhece – é insondável a distância de um abismo que se mede numa escala de fissuras – Assim disse Mallarmé – nomear um Nome é banir a maior parte do prazer suscitado por um Autor porquanto esse prazer consiste num processo de revelação gradual…