Devolver a realidade

A empresa de transporte tocou à campainha.

– Era para entregar a realidade.

Assim que o transportador me entregou a caixa em mãos, abri-a e deparei-me com a realidade muito bem embrulhada, envolvida em várias camadas de papel. Isso fez com que o processo de desembrulhar a encomenda demorasse um pouco mais do que o normal. Depois de finalmente tê-la nas minhas mãos, observei-a e parecia ser a mesma realidade de sempre, no entanto ao rodá-la sobre si mesma, reparei em algo e decidi informar o transportador.

– Vem com um defeito.

O transportador, gentilmente, pegou na realidade como se não acreditasse no que eu lhe dizia. Olhou-a com pormenor e, ao mesmo tempo, pegou num pequeno manual, talvez fosse o livro de instruções, e revisou passo por passo o estado da realidade. Em seguida, pegou num pano e com muito cuidado limpou a realidade de uma ponta a outra. Depois disso, pareceu querer dizer-me algo, mas eu apontei com o dedo o defeito que, diga-se, não era percetível à primeira vista, mas que se olhássemos bem numa das extremidades da realidade, podíamos ver que a pintura estava ligeiramente adulterada, como se alguém tivesse tentado disfarçar alguma falha na sua estrutura. O transportador então acrescentou algo.

– Peço desde já as nossas sinceras desculpas pelo problema encontrado na realidade. O nosso protocolo neste tipo de casos permite a devolução do artigo, podendo oferecer-lhe a reposição ou o reembolso do valor da compra. Neste caso, se optar pela reposição, terá de ser por outro produto, uma vez que a realidade encontra-se momentaneamente fora de stock.

Eu e o transportador ficamos uns momentos em silêncio a observar a realidade muito quieta, algo hipnótica até. Certamente, ele desejava completar o seu serviço com cuidado e o mais rápido possível, uma vez que outras entregas o aguardavam. E eu desejava que a minha realidade estivesse exactamente como mostrada na fotografia e no momento da compra, com a mesma cor, o mesmo tamanho e capaz de cumprir todas as suas funcionalidades originais: ser tão grande como a imaginação. Não tinha pago tanto pela realidade para que agora ela viesse com um defeito de fábrica.

– Prefere a reposição de outro artigo ou o reembolso do valor da compra?

E eu a pensar que outro artigo teriam afinal disponível, o futuro com um rebordo em linho, a existência com design dobrável, a utopia em formato espreguiçadeira…

– Lembro-lhe – insistia o transportador – que se optar pela reposição o envio terá um custo adicional de 3,99€, referente aos gastos de envio.

E ali mesmo percebi que ficaria novamente sem a minha realidade.

Texto publicado originalmente na edição nº 26 da Revista Sem Equívocos.

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