As pessoas que carregam dúvidas ocupam demasiado espaço

De repente, uma multidão invadiu as ruas da cidade, trazendo consigo as suas dúvidas. Fiquei a observá-las, ocupando um espaço maior do que o habitual. O ar fresco estava subitamente impregnado com a urgência das dúvidas, prontas para explodir a qualquer momento e lançar o caos no mundo. No entanto, as dúvidas pareciam pesar bastante, pois o esforço era evidente nos corpos e nos rostos das pessoas. Embora o ritmo desajeitado fizesse com que oscilassem de um lado para o outro, como um navio de carga à deriva, tornando o caminhar daquela multidão precário.

Ao cruzar-me com elas, precisaria certamente de calcular o lado por onde seria possível passar sem um violento embate. Teria de fazer um rápido cálculo entre tempo, velocidade e destreza, pois não seria de esperar qualquer tipo de reação destas pessoas para evitar o choque com uma dúvida. Apesar da inquietude indisfarçável que emanava das suas expressões, mantinham um perfil afável, como se as boas maneiras fossem o seu escudo contra as certezas do mundo. Assim, compensavam a limitação dos seus corpos com breves movimentos da cabeça e com palavras que ecoavam em cada esquina.

“Lamento qualquer perturbação ao questionar as convenções pré-estabelecidas”, “Com licença, enquanto desafio a autoridade do status quo”, “Perdoe-me por recusar aceitar a verdade única”. Havia quem, por vezes, se preocupasse com estas pessoas e, ao vê-las avançar sem fôlego, perguntasse: “Precisa de ajuda com as suas dúvidas?” Porém, elas recusavam quase sempre o altruísmo das boas pessoas e com o peso de todas as suas dúvidas avançavam com estoicismo, ocupando cada vez mais toda a cidade.

Estes manifestos silenciosos erigiam-se contra a rigidez do mundo, uma tentativa de aliviar o impacto das dúvidas num tempo que exigia certezas absolutas. Estas pessoas, conscientes das vicissitudes do avanço do mundo, recusavam-se a aceitar a ordem das coisas, optando por desafiar as normas e o império do estabelecido. Dessa forma, ao avançarem com o seu estoicismo, ocupavam não apenas o espaço físico da cidade, mas também o espaço simbólico da resistência. Era um ato de rebelião silenciosa, uma recusa em conformar-se com um mundo que não deixava espaço para as dúvidas e a reflexão, mas sim uma celebração da complexidade e da ambiguidade da condição humana.

À medida que essas pessoas lançavam o caos no mundo, sentia-me cada vez mais ligado a elas, como se desejasse ser parte dessa multidão sem nome, como se quisesse não apenas carregar as minhas próprias dúvidas, mas também as de todo o mundo. No entanto, a polícia irrompeu abruptamente para dispersar a multidão de dúvidas que ocupava as ruas da cidade. Com isso, as ruas recobraram o seu ritmo monótono, e as pessoas retomaram as suas rotinas diárias, ignorando aquele tumulto que um dia dominara o espaço com as suas incertezas. Assim, o caos deu lugar à previsível ordem das certezas, e eu mergulhei novamente na banalidade quotidiana.

Publicado na 29º edição da revista Sem Equívocos.

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