Confiei inteiramente na influência do destino. Era um hábito sagrado: sempre que havia uma oportunidade e o tempo permitia, lá estava eu, empenhado em zelar por ele. Regava as plantas com meticulosidade, atento a cada folha que necessitava de um pouco mais de água, reparava uma telha solta que ameaçava a sua integridade, e fortalecia uma viga enfraquecida para assegurar a estabilidade do lugar.
Nos dias ensolarados, dedicava-me a podar as videiras meticulosamente, assegurando que cada cacho de uva se desenvolvesse plenamente. Cuidava dos arbustos com carinho, garantindo que a luz do sol alcançasse todas as folhas, e reestruturava o sistema de irrigação com precisão milimétrica para que a água fluísse livremente até os frutos: maçãs vermelhas e suculentas, pêssegos dourados e morangos rubros. Não havia detalhe pequeno demais para mim. Retirava os galhos secos das árvores altas, com o cuidado de não prejudicar os brotos novos que em breve se transformariam em folhas renovadas. Com atenção minuciosa, reparava as tábuas do terraço, assegurando que cada passo ali dado fosse seguro e confortável. E à noite, quando o trabalho estava terminado e o aroma das frutas e flores impregnava o ar, eu recostava-me para apreciar o lugar que havia cuidado com tanto zelo. Era como se o próprio destino agradecesse. Para além disso, deleitava-me em trocar palavras com os escassos vizinhos que ainda residiam no lugar. Alguns habitantes também se deixavam embalar pela sua magia, permanecendo ali partilhando narrativas e pequenas tradições que teciam a vida naquela comunidade. Eram instantes de afeição e camaradagem, que fortaleciam os laços que todos nós nutríamos por aquele local ímpar. Entre conversas sussurradas, partilhávamos preocupações sobre como, aos poucos, o sítio se transformava em ponto de atração turística, seduzindo visitantes em busca da sua beleza natural e aura singular. Temíamos que, como tantas outras urbes, o lugar se curvasse aos preços sobejados que afastam os nativos, tornando a comunidade num borrão recordativo do que um dia foi. Eu lutava para conservar a esperança de que esta mudança pudesse ser revertida e que o lugar nunca perdesse a sua essência primeira. E foi nesse instante que um desconhecido se aproximou de mim, mudando para sempre o rumo da minha vida com aquela pergunta: Quanto paga para alugar o destino? (Artigo publicado na edição nº 30 da revista Sem Equívocos).
Muito bom. Um fim tão inesperado, tão envolvente que me irá acompanhar!…
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