Depois de Žižek Vai ao Ginásio, livro em que Tiago Alves Costa já cruzava crítica social, corpo, pensamento contemporâneo e ironia filosófica, Deus Ainda Usa o Windows 10 confirma a coerência de uma voz cada vez mais reconhecível na poesia portuguesa contemporânea. O autor regressa aqui a alguns dos seus temas centrais, como o desgaste do sujeito moderno, a precariedade, a automatização da vida e o colapso discreto das promessas colectivas, agora com uma maturidade formal e conceptual que faz deste livro um momento importante do seu percurso.
O título, que poderia parecer apenas uma provocação pop ou uma blague tecnológica, revela-se uma chave de leitura para toda a obra. Deus surge como uma entidade presa a um sistema operativo obsoleto, sujeita à lentidão, ao erro, à actualização forçada e ao pequeno desastre informático. A imagem é cómica, sem dúvida, e precisamente por isso adquire uma gravidade inesperada. Há nela uma forma de pensar o nosso tempo: uma época em que até a transcendência parece depender de protocolos, falhas de sistema e avisos de reinício.
Este não é, no sentido mais estreito, um livro sobre tecnologia. É antes um livro sobre a inscrição cansada do humano num mundo transformado em sequência de procedimentos, acessos, passwords, tarefas, confirmações e pequenas obediências quotidianas. A tecnologia aparece como linguagem simbólica de algo mais vasto: a maneira como a vida contemporânea foi sendo administrada, medida, acelerada e convertida em funcionamento.
A estética do desgaste e da obsolescência
Um dos aspectos mais fortes de Deus Ainda Usa o Windows 10 é a forma como o livro observa o esgotamento contemporâneo sem o transformar em abstracção sociológica. A fadiga que atravessa estes poemas é concreta, laboral, corporal, administrativa. É a fadiga de quem responde, espera, aceita termos e condições, procura uma saída, entra num elevador, cumpre horários, atravessa sistemas e percebe que o próprio corpo se tornou extensão de uma máquina que já não promete salvação, apenas continuidade.
Neste sentido, a poesia de Tiago Alves Costa aproxima-se de uma tradição moderna que encontra no quotidiano e nos objectos aparentemente menores uma forma de revelação. Há ecos de Álvaro de Campos no cansaço eléctrico que percorre estes textos, embora filtrados por uma consciência mais tardia, atravessada pela precariedade, pela hiperconexão e pela ironia pós-industrial. O progresso surge aqui sem triunfalismo, como uma acumulação de resíduos: notificações, contratos temporários, plataformas, recibos, senhas, passwords esquecidas e pequenas humilhações burocráticas.
A linguagem do livro parece nascer da própria matéria que observa. Avança sem aparato, sem procurar embelezar demasiado a ruína. A sua secura tem espessura. Cada frase parece medida contra o excesso de discurso do mundo, contra a proliferação de mensagens, comandos, slogans e liturgias administrativas que disputam a nossa atenção. Esta contenção não empobrece a experiência; pelo contrário, dá-lhe nitidez. O poema corta onde o ruído se acumula, abranda onde a época acelera e interrompe onde a linguagem social exige fluidez, eficácia e resposta imediata.
A exaustão deixa, assim, de ser apenas tema. Torna-se procedimento. Entra na respiração do verso, na sua hesitação, na sua recusa do brilho fácil. É nesse ponto que o livro ganha densidade, porque transforma o cansaço numa inteligência formal e faz da falha um princípio de lucidez.
A ironia como escudo e navalha
Um dos grandes trunfos da obra está no uso da ironia. Tiago Alves Costa não pratica uma ironia cínica, satisfeita com a sua própria superioridade, nem se limita à piada fácil sobre o absurdo tecnológico do presente. A sua ironia é mais complexa: funciona como defesa e como forma de conhecimento. Serve para desarmar o mundo e, ao mesmo tempo, para revelar a sua mecânica íntima, o seu dispositivo de falência.
O humor, neste livro, permite permanecer diante da catástrofe sem lhe conceder uma solenidade total. O poema aproxima-se do leitor pela graça, pela surpresa, por uma imagem inesperada, e deixa-o depois num lugar mais desconfortável, onde o riso se converte em diagnóstico. Há uma violência mansa nestes textos. Primeiro abrem uma fenda de inteligência, depois deixam a impressão de que essa fenda nos devolve a imagem exacta da nossa própria cumplicidade com o desastre.
Essa insistência depois da falência aproxima o livro de uma sensibilidade beckettiana, embora situada no presente digital. O sujeito destes poemas não proclama grandes recusas heroicas. Continua. Aceita. Responde. Clica. Confirma. Entra no elevador. Procura uma saída dentro de um sistema que talvez já exista apenas para repetir a sua avaria. Contudo, essa continuidade nunca é completamente passiva. Há nela uma resistência mínima, quase bartlebyana, feita de hesitação, humor e pequenas sabotagens da linguagem.
A ironia funciona, por isso, como escudo e navalha. Protege o sujeito da destruição completa e corta a superfície falsamente lisa do presente.
O sagrado profanado
A fusão entre vocabulário teológico e jargão tecnológico é uma das operações mais felizes do livro. Deus, fé, culpa, queda, salvação e redenção surgem contaminados por sistemas operativos, bugs, protocolos, actualizações, falhas de conexão e dispositivos de gestão. O efeito ultrapassa a paródia. Ao sugerir que até Deus usa Windows 10, Tiago Alves Costa desloca a ideia de transcendência para o campo da obsolescência. A pergunta deixa de ser apenas onde está Deus e passa a ser outra, mais irónica e talvez mais inquietante: que sistema ainda sustenta o mundo?
Esta profanação aproxima o livro de uma longa tradição literária em que o sagrado sobrevive sob formas degradadas, cómicas ou residuais. A modernidade foi muitas vezes o lugar onde o sublime se misturou com a lama da cidade, com o escritório, com a máquina, com o corpo cansado. Tiago Alves Costa trabalha precisamente nesse território. Retira Deus do altar e coloca-o dentro de um sistema em falha, como se a última forma de transcendência estivesse, paradoxalmente, no erro.
O bug, neste livro, não é apenas um acidente técnico. É uma figura filosófica. O erro, o atraso, a demora e a impossibilidade de funcionamento pleno tornam-se sinais de humanidade num mundo que exige desempenho contínuo. Contra a fantasia contemporânea da optimização, o autor encontra no defeito uma reserva de verdade. Somos humanos porque falhamos, porque demoramos, porque não carregamos completamente, porque continuamos opacos diante da transparência total da máquina.
A poesia depois da promessa
Deus Ainda Usa o Windows 10 é também um livro sobre o que acontece depois da promessa. Depois da promessa religiosa, da promessa política, da promessa tecnológica e da promessa neoliberal de eficiência, mobilidade e felicidade produtiva. A época que aqui se desenha já não acredita inteiramente nos seus próprios slogans, embora continue a obedecer-lhes. É dessa contradição que nasce a força crítica e o humor melancólico da obra.
Tiago Alves Costa escreve a partir do presente sem cair numa nostalgia limpa. O livro não procura um regresso idealizado a uma pureza anterior, nem se limita a lamentar a cultura digital. O que encontramos é uma consciência aguda de que a técnica, o trabalho e a linguagem se tornaram formas de organização da alma. A modernidade tardia aparece como uma teologia sem fé, um culto sem transcendência, uma liturgia de notificações, passwords, recibos, plataformas e pequenos colapsos íntimos.
Neste mundo, o poema ainda pode funcionar como interrupção. Pode desacelerar, introduzir ruído no sistema, restituir ao sujeito uma zona mínima de atenção. É talvez aí que reside a dimensão mais política do livro: na forma como observa a captura do corpo, do tempo e da linguagem, mostrando como a vida se converteu numa sequência de gestos funcionais, respostas imediatas e pequenas obediências.
A poesia de Tiago Alves Costa resiste pela recusa do consolo rápido. Observa, desmonta, tropeça e insiste. Há nela uma lucidez sem ditirambo, uma ternura sem sentimentalismo, uma crítica sem pose de tribunal. O mundo surge gasto, atravessado ainda por restos de voz, por pequenas zonas luminosas e por uma esperança oblíqua que não se confunde com optimismo.
Depois de Žižek Vai ao Ginásio, este novo livro confirma a solidez de uma obra poética coerente e necessária, cuja singularidade nasce da capacidade de pensar o presente sem o simplificar, de atravessar a cultura digital sem se render à sua espuma e de transformar a precariedade, o cansaço e a falha em matéria literária. É uma obra desconfortável e profundamente empática, capaz de fazer do humor uma forma de pensamento e da falha uma pequena metafísica do humano. Ao extrair lirismo do metal frio dos nossos dias, Tiago Alves Costa confirma-se como um autor atento às ruínas do presente e às cintilações que ainda persistem nelas, ténues, imperfeitas, quase ridículas, e por isso mesmo necessárias.
Miguel Antunes de Almeida é professor universitário e autor de textos de crítica literária e cultural.
