Inventário do cansaço contemporâneo: mordacidade, falha e resistência em Deus Ainda Usa o Windows 10, de Tiago Alves Costa

Depois de Žižek Vai ao Ginásio, livro onde Tiago Alves Costa já cruzava crítica social, pensamento contemporâneo, corpo e ironia filosófica, Deus Ainda Usa o Windows 10 confirma a coerência e a força de uma obra cada vez mais reconhecível no panorama da poesia contemporânea em língua portuguesa. O autor regressa aqui a alguns dos seus temas centrais, o desgaste do sujeito moderno, a precariedade, a automatização da vida, o colapso discreto das promessas colectivas, mas fá-lo com uma maturidade formal e conceptual que transforma o livro numa peça decisiva do seu percurso.

O título, que à primeira vista poderia ser lido como uma provocação pop, uma blague tecnológica ou um gesto de humor pós-digital, revela-se afinal uma chave de leitura para toda a obra. Deus já não surge como figura soberana, imóvel e transcendente, mas como uma entidade presa a um sistema operativo obsoleto, sujeita à lentidão, ao erro, à actualização forçada, ao pequeno desastre informático. A imagem é cómica, sem dúvida, mas é precisamente por isso que se torna grave.

Há neste livro uma intuição que atravessa parte importante da modernidade literária e filosófica: a de que o mundo não acabou de repente, mas foi perdendo, pouco a pouco, a sua capacidade de promessa. Se em Kafka a lei permanece inacessível e em Beckett a espera se transforma numa forma terminal de existência, em Tiago Alves Costa a transcendência parece ter sido substituída pela barra de carregamento, pelo aviso de sistema, pela password esquecida, pela máquina que continua a funcionar apesar de já ninguém acreditar verdadeiramente nela. O resultado não é uma poesia sobre tecnologia, no sentido estreito do termo, mas uma poesia sobre a nossa inscrição cansada numa época que transformou a vida numa sequência de procedimentos, acessos, falhas, tarefas e confirmações de humanidade.

A estética do desgaste e da obsolescência

O livro destaca-se pela sua capacidade de mapear o esgotamento do sujeito contemporâneo sem o converter em abstracção sociológica. A escrita de Tiago Alves Costa fixa-se numa fadiga concreta, laboral, corporal, quase administrativa: a de quem bate o ponto, se arrasta entre sistemas, responde, espera, aceita termos e condições, e vê o próprio corpo tornar-se extensão de uma máquina que já não promete salvação, apenas funcionamento

Neste sentido, a sua poesia aproxima-se de uma tradição moderna que encontra no quotidiano, no objecto e na linguagem aparentemente menor, uma forma de revelação. Há qualquer coisa de Álvaro de Campos no cansaço eléctrico que percorre estes poemas, mas também uma consciência mais fria, mais tardia, atravessada pela precariedade, pela hiperconexão e pela ironia pós-industrial. Como em Walter Benjamin, o progresso não aparece aqui como marcha triunfal, mas como acumulação de destroços. A diferença é que os destroços já não são apenas os da história monumental; são também os resíduos de uma vida organizada por interfaces, aplicações, notificações, contratos temporários e pequenas humilhações burocráticas.

A linguagem de Deus Ainda Usa o Windows 10 parece nascer da própria matéria que observa. Avança sem aparato, sem procurar uma elevação artificial da experiência, como se desconfiasse de qualquer ornamento capaz de embelezar demasiado a ruína. A sua secura, porém, tem espessura: cada frase parece medida contra o excesso de discurso do mundo, contra a proliferação de mensagens, comandos, notificações, slogans e pequenas liturgias administrativas que hoje disputam a nossa atenção. Daí que a dicção de Tiago Alves Costa seja menos uma forma de pobreza expressiva do que uma ética da contenção. O poema corta onde o ruído se acumula, abranda onde a época acelera, interrompe onde a linguagem social exige fluidez, eficácia e resposta imediata. A exaustão, assim, deixa de ser apenas tema e torna-se procedimento: entra na respiração do verso, na sua hesitação, na sua forma de recusar o brilho fácil. É nesse ponto que o livro ganha verdadeira densidade, pois transforma o cansaço numa inteligência formal, numa maneira de pensar a partir do desgaste e de fazer da falha um princípio de lucidez.

A ironia como escudo e navalha

Um dos grandes trunfos da obra está no uso da ironia. Não se trata de uma ironia cínica, satisfeita com a sua própria superioridade, nem de uma piada fácil sobre o absurdo tecnológico do presente. A ironia de Tiago Alves Costa tem outra natureza: é um modo de defesa, mas também uma forma de conhecimento. Serve para desarmar o mundo, mas sobretudo para revelar a sua mecânica íntima, o seu dispositivo de falência.

Neste ponto, o livro aproxima-se de uma linhagem que passa por Swift, por Sterne, por certa tradição satírica moderna e, mais perto de nós, por autores que perceberam que o humor pode ser uma ferramenta metafísica. O humor, aqui, não desvia o olhar da catástrofe; permite permanecer diante dela sem lhe conceder a solenidade total. O poema seduz o leitor para depois o abandonar num lugar desconfortável, onde a graça já se transformou em diagnóstico. Há uma violência mansa nestes textos: primeiro abrem uma fenda de inteligência, depois deixam a impressão de que essa fenda talvez nos devolva a imagem exacta da nossa própria cumplicidade com o desastre.

A afinidade com Beckett é particularmente visível neste modo de insistir depois da falência. O sujeito destes poemas não proclama grandes recusas heroicas. Continua. Aceita. Responde. Clica. Confirma. Entra no elevador. Procura uma saída dentro de um sistema que talvez já só exista para repetir a sua avaria. Mas essa continuidade não é passividade absoluta. Há nela uma espécie de resistência mínima, quase bartlebyana, um modo de sobreviver pela hesitação, pelo humor, pela pequena sabotagem da linguagem. A ironia funciona, assim, como escudo e navalha: protege o sujeito da destruição completa e, ao mesmo tempo, corta a superfície falsamente lisa do presente.

O sagrado profanado

A fusão entre vocabulário teológico e jargão tecnológico é uma das operações mais felizes do livro. Deus, fé, salvação, culpa, queda ou redenção surgem contaminados por sistemas operativos, bugs, protocolos, actualizações, falhas de conexão e dispositivos de gestão. O efeito não é apenas paródico. Ao sugerir que até Deus usa Windows 10, Costa não se limita a humanizar o divino; desloca a própria ideia de transcendência para o campo da obsolescência. A pergunta deixa de ser “onde está Deus?” para passar a ser outra, mais irónica e talvez mais terrível: que tipo de sistema ainda sustenta o mundo?

Esta profanação dialoga com uma longa tradição literária em que o sagrado sobrevive sob formas degradadas, cómicas ou residuais. Em Baudelaire, a modernidade era já esse lugar em que o sublime se mistura com a lama da cidade; em Pessoa, a metafísica atravessa o escritório, a rua, o corpo cansado, a máquina de escrever; em Agamben, a profanação permite devolver ao uso comum aquilo que foi separado e sacralizado. Tiago Alves Costa parece operar nesse ponto exacto: retira Deus do altar e coloca-o dentro de um sistema em falha, não para o destruir simplesmente, mas para mostrar que talvez a nossa última forma de transcendência esteja precisamente no erro.

O bug, neste livro, não é apenas um acidente técnico. É uma figura filosófica. O erro, o atraso, a falha, a demora e a impossibilidade de funcionamento pleno tornam-se sinais de humanidade num mundo que exige desempenho contínuo. Contra a fantasia contemporânea da optimização, Costa encontra no defeito uma reserva de verdade. Somos humanos porque falhamos, porque demoramos, porque não carregamos completamente, porque recusamos, ainda que sem heroísmo, a transparência total da máquina.

A poesia depois da promessa

O que torna Deus Ainda Usa o Windows 10 particularmente interessante é o modo como o livro trabalha depois da promessa. Depois da promessa religiosa, depois da promessa política, depois da promessa tecnológica, depois da promessa neoliberal de eficiência, mobilidade e felicidade produtiva. Neste sentido, é um livro sobre uma época que já não acredita nos seus próprios slogans, mas continua a obedecer-lhes. Essa contradição dá à obra a sua força crítica e o seu humor melancólico.

Tiago Alves Costa não escreve contra a modernidade a partir de uma nostalgia limpa. Não há aqui regresso idealizado a uma pureza anterior, nem lamentação reaccionária contra o presente digital. O que existe é uma consciência aguda de que a técnica, o trabalho e a linguagem se tornaram formas de organização da alma. A modernidade tardia aparece como uma teologia sem fé, um culto sem transcendência, uma liturgia de notificações, passwords, recibos, plataformas e pequenos colapsos íntimos. Neste mundo, o poema ainda pode funcionar como interrupção, como desaceleração, como ruído no sistema.

É talvez aí que reside a dimensão mais política do livro: na atenção ao modo como o presente captura o corpo, o tempo e a linguagem, convertendo a vida numa sequência de gestos funcionais, respostas imediatas e pequenas obediências quotidianas. A poesia de Tiago Alves Costa resiste pela recusa do consolo rápido. Observa, desmonta, tropeça e insiste. Há nela uma lucidez sem ditirambo, uma ternura sem sentimentalismo, uma crítica sem pose de tribunal. O mundo surge gasto, sim, atravessado ainda por restos de voz, por pequenas zonas luminosas, por uma esperança oblíqua que não se confunde com optimismo.

Depois de Žižek Vai ao Ginásio, este novo livro confirma a solidez de uma obra poética poderosa, coerente e cada vez mais necessária, cuja singularidade nasce da capacidade de pensar o presente sem o simplificar, de atravessar a cultura digital sem se render à sua espuma e de transformar a precariedade, o cansaço e a falha em matéria de exigência literária. É uma obra desconfortável e profundamente empática, capaz de fazer do humor uma forma de pensamento e da falha uma pequena metafísica do humano. Ao extrair lirismo do metal frio dos nossos dias, Tiago Alves Costa confirma-se como um autor atento às ruínas do presente, mas também às cintilações que ainda persistem nelas, ténues, imperfeitas, quase ridículas, e por isso mesmo necessárias.

Miguel Antunes de Almeida é professor universitário e autor de textos de crítica literária e cultural.

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