Depois de Žižek Vai ao Ginásio (Através Editora, 2021), livro em que Tiago Alves Costa já cruzava crítica social, corpo, pensamento contemporâneo e ironia, Deus ainda usa o Windows 10 (Poets & Dragons Society, 2026) confirma a coerência de uma voz cada vez mais reconhecível na poesia portuguesa contemporânea. O autor regressa aqui a alguns dos seus temas centrais — o desgaste do sujeito moderno, a precariedade, a automatização da vida e o colapso discreto das promessas coletivas —, agora com uma maturidade formal que faz deste livro um momento importante do seu percurso.
O título, que poderia parecer apenas uma provocação pop ou uma blague tecnológica, revela-se uma chave de leitura para toda a obra. Deus surge como uma entidade presa a um sistema operativo obsoleto, sujeita à lentidão, ao erro, à atualização forçada e ao pequeno desastre informático. A imagem é cómica e, precisamente por isso, adquire uma gravidade inesperada. Há nela uma forma de pensar o nosso tempo: uma época em que até a transcendência parece depender de protocolos, falhas de sistema e avisos de reinício.
Lido em profundidade, o livro ultrapassa o tema da tecnologia e interroga a inscrição cansada do humano num mundo transformado em sequência de procedimentos, acessos, passwords, tarefas, confirmações e pequenas obediências quotidianas. A linguagem tecnológica aparece como símbolo de algo mais vasto: a forma como a vida contemporânea foi sendo administrada, medida, acelerada e convertida em funcionamento. Um dos versos mais marcantes do livro “NÃO ÉS LIVRE / ÉS GRÁTIS” condensa esse campo simbólico. A fórmula é breve, quase publicitária, e vira a publicidade contra si própria. Nela está a falsa promessa de liberdade do mundo digital, onde o acesso parece emancipação e a gratuitidade se revela uma forma subtil de captura. Ser “grátis” raramente significa escapar ao mercado; significa, muitas vezes, ter sido incorporado nele como dado, perfil, tráfego, atenção, comportamento.
Um dos méritos centrais de Deus ainda usa o Windows 10 é a forma como observa o esgotamento contemporâneo sem o converter em abstração sociológica. A fadiga que atravessa estes poemas é concreta, laboral, corporal, administrativa: a fadiga de quem responde, espera, aceita termos e condições, procura uma saída, entra num elevador, cumpre horários, atravessa sistemas e percebe que o próprio corpo se tornou extensão de uma máquina já incapaz de prometer salvação, oferecendo apenas continuidade. A epígrafe de Maurice Blanchot “O cansaço tem um grande coração” ilumina este campo de leitura: o cansaço surge como quebra, derrota, exposição e abertura sensível ao mundo. Talvez por isso atravesse o livro uma espécie de Bartleby 3.0, alguém que já não diz apenas “preferia não o fazer”, antes parece responder ao imperativo permanente da atualização com uma fórmula mínima: “prefiro não atualizar”. Essa recusa contém uma potência crítica: diante da ordem permanente de funcionamento, até a falha pode tornar-se resistência.
A poesia de Tiago Alves Costa aproxima-se, neste ponto, de uma tradição moderna que encontra no quotidiano e nos objetos aparentemente menores uma forma de revelação. Professor universitário em Barcelona, o autor escreve a partir de uma experiência atravessada pela precariedade contemporânea, pela hiperconexão e pela vida urbana. Há ecos de Álvaro de Campos no cansaço elétrico que percorre estes textos, embora já filtrados por uma sensibilidade pós-industrial, onde o progresso surge sem triunfalismo, como acumulação de resíduos: notificações, contratos temporários, plataformas, recibos, senhas, passwords esquecidas e pequenas humilhações burocráticas.
A linguagem do livro parece nascer da própria matéria que observa. Avança sem aparato, sem procurar embelezar a ruína. A sua secura tem espessura. Cada frase parece medida contra o excesso de discurso do mundo, contra a proliferação de mensagens, comandos, slogans e liturgias administrativas que disputam a nossa atenção. O poema corta onde o ruído se acumula, abranda onde a época acelera e interrompe onde a linguagem social exige fluidez, eficácia e resposta imediata. A exaustão deixa, assim, de ser apenas tema, torna-se procedimento, entra na respiração do verso, na sua hesitação, na sua recusa do brilho fácil. É aqui que o livro ganha densidade, transforma o cansaço numa inteligência formal e faz da falha um princípio de leitura do humano.
Talvez por isso o livro possa ser lido também como um campo de forças. À maneira de Deleuze, menos como estrutura fechada do que como circulação de intensidades, afetos e relações, estes poemas fazem passar pela linguagem forças em tensão; corpo e máquina, fé e obsolescência, humor e ferida, burocracia e desejo, precariedade e sobrevivência. A composição aproxima-se, em vários momentos, de uma lógica rizomática: imagens, sistemas, restos de fala, jargão tecnológico, frases administrativas e fulgurações líricas ligam-se entre si sem obedecerem a uma hierarquia estável. A unidade do livro nasce precisamente dessa rede de avarias.
O humor é outro dos grandes trunfos da obra. Recordando Baudelaire, para quem o humor era uma palavra quase intraduzível, talvez possamos dizer que em Deus ainda usa o Windows 10 ele surge como força instável, escapa à definição simples, desloca o sentido, perturba a gravidade sem a apagar. Tiago Alves Costa trabalha essa zona ambígua em que a ironia se aproxima da ferida e a graça se converte em diagnóstico. O poema aproxima-se do leitor pela surpresa, por uma imagem inesperada, por uma torção súbita da linguagem, deixando-o depois num lugar mais desconfortável, onde o riso já não serve de fuga, antes revela a nossa cumplicidade com o desastre. A ironia funciona, assim, como escudo e navalha, protege o sujeito da destruição completa e corta a superfície falsamente lisa do presente.
A fusão entre vocabulário teológico e jargão tecnológico é uma das operações mais felizes do livro. Deus, fé, culpa, queda, salvação e redenção surgem contaminados por sistemas operativos, bugs, protocolos, atualizações, falhas de conexão e dispositivos de gestão. Ao sugerir que até Deus usa Windows 10, Tiago Alves Costa desloca a transcendência para o campo da obsolescência. A pergunta deixa de incidir apenas sobre o lugar de Deus e passa a formular-se de outro modo: que sistema ainda sustenta o mundo? O bug adquire, neste livro, uma densidade filosófica. O erro, o atraso, a demora e a impossibilidade de funcionamento pleno tornam-se sinais de humanidade numa época que exige desempenho contínuo. Contra a fantasia contemporânea da otimização, o autor encontra no defeito uma reserva de verdade.
Deus ainda usa o Windows 10 é também um livro sobre o que acontece depois da promessa, depois da promessa religiosa, da promessa política, da promessa tecnológica e da promessa neoliberal de eficiência, mobilidade e felicidade produtiva. A época aqui desenhada já não acredita inteiramente nos seus próprios slogans, embora continue a obedecer-lhes. Dessa contradição nasce a força crítica e o humor melancólico da obra. Longe de procurar um regresso idealizado a uma pureza anterior, Tiago Alves Costa trabalha dentro da própria matéria contaminada do tempo. A técnica, o trabalho e a linguagem tornaram-se formas de organização da alma. A modernidade tardia aparece como uma teologia sem fé, um culto sem transcendência, uma liturgia de notificações, passwords, recibos, plataformas e pequenos colapsos íntimos.
Neste mundo, o poema ainda pode funcionar como interrupção. Pode desacelerar, introduzir ruído no sistema, restituir ao sujeito uma zona mínima de atenção. A dimensão mais política do livro reside talvez aí: na forma como observa a captura do corpo, do tempo e da linguagem, mostrando como a vida se converteu numa sequência de gestos funcionais, respostas imediatas e pequenas obediências.
Depois de Žižek Vai ao Ginásio, este novo livro confirma a solidez de uma obra poética coerente e necessária. A sua singularidade nasce da capacidade de pensar o presente sem o simplificar, de atravessar a cultura digital sem se render à sua espuma e de transformar a precariedade, o cansaço e a falha em matéria literária. Ao extrair lirismo do metal frio dos nossos dias, Tiago Alves Costa afirma-se como um autor atento às ruínas do presente e às cintilações que ainda persistem nelas: ténues, imperfeitas, quase ridículas, e por isso mesmo necessárias.
Miguel Antunes de Almeida é professor e autor de textos de crítica literária e cultural.
