Microfísica do absurdo (e a ciclotímica arte de ser português e/ou poeta)

Mas afinal quanto anos tem?

Eu não tenho anos – olhou ligeiramente o fundo da sala e continuou – albergo em mim todos os anos. Digamos que sou uma espécie de qualquer coisa que ao tempo pertence. Sim, sou tempo. Ao ser tempo sou tudo aquilo que me permito ser: tudo e nada. Sou, se assim se pode dizer, uma forma absoluta de viver, um sonho, uma pontual e rítmica forma de ser, um sistema de sentimentos, soberano e frágil, tal como a própria vida, essa mesma que avança contrária às horas que ditam os contadores oficiais do mundo. Sou algo que a noite supõe, esse compasso de tempo sem hora, essa fulgurante vontade pelas coisas, esse cansaço-dom que tudo suporta e equilibra. Sou no fundo este enorme vazio por tudo. Um transumante desta inefável girândola que sempre inquietou o espírito mais sensível – penteou ligeiramente o cabelo -. Alguém que se nega ao que lhe foi imposto. Isto propriamente da vida, da vida imaginada, este imaginário colectivo que todos julgam mover-se por essa coisa chamada verdade. A vidinha que cada um leva dentro de si por acreditar que foi essa que lhe atribuirão à nascença e que mais vidas não poderão ser – silenciou-se de novo por um momento… – Mas eu não tenho anos. Não tenho e nem saberei dar-lhe um número por muito que tente imaginar alguma cronologia que se cinja aos limites do real.

Veja bem:

quem conta as horas que a vida tem
não sabe quanta vida numa hora vem

Então é poeta?

Sou português. Mas não quero com isto dizer que não tente representar-me como um autor de desconfianças. Um inquilino de mim mesmo. Um poeta com contas por pagar. Um empregado das palavras, portanto.

Mas isso tem algo de contraditório… é português ou é poeta? – insisti

Ser poeta está obviamente naquilo que eu considero ser digno de me representar como português – olhou-me sério nos olhos – Mas como não hei-de eu ser contraditório se a vida o é também? Isto é muito mais complicado e sensível do que pensa – silenciou-se por um momento e voltou de novo aos seus argumentos. Ser português foi condição que naturalmente me obriguei por natureza. E estudei muito para isso! Estudei sobretudo aquilo que me faltou de algo que nunca quis deixar de ser pela minha vontade de querer ser tudo, os outros, neste caso. Parece-lhe confuso? No fundo sou qualquer coisa de invisível, algo disfarçado do que poderia ter sido. Alguém capaz de ser tudo por um dia: um mestre de barco de rota longa, um amante de mulher sem corpo, um pica de um comboio para o fim da linha, um subchefe de uma corporação de sonhadores, um empregado de mesa… oh sim, um empregado de mesa com aquele ritmo alegre de atender os clientes, funambulista de mesas para o balcão sem fundo com 6 dias pagos mais um subsidio para alimentar a vizinhança do 3º direito, um empregado de mesa como dita os ritmos do mundo, com força para enfrentar o imperativo das horas irreais, livre e insubmisso, concreto e vago e ao segundo dia com um despedimento por justa causa pelo cansaço que tudo me subtrai.

Parara agora as palavras e no silêncio que ficou no ar ele olhou-me, de novo, com aqueles seus brilhantes e redondos olhos.

No entanto – dizia ele com algum ímpeto – de uma coisa tenho a certeza: os meus pés não têm culpa dos crimes cometidos nas salas de reuniões. Eu – apontava agora com o braço numa direcção vaga – não sou uma mera proposta de qualquer coisa que não foi aceite em acórdão. Não, protestei muito ao meu redor, é certo, bati com os pés no perímetro de chão que me era permitido, como aquelas crianças que com teimosia não querem tudo o que lhe dão. Realizei tumultos contra mim mesmo, enfrentei-me ao mais vil que de mim há mas fui rapidamente dispersado por falta de condição física. Lá no fundo, cansei-me de explicar que não vim cá por ser fim-de-semana… – voltou a silenciar-se por um momento -. Mas digamos que ser poeta foi algo que inventaram um dia para eu poder passar na porta de um bar onde só era permitida a entrada a estrangeiros, estrangeiros, diga-se, com um bom comprimento de onda. Com um bom nível de altura.

Imagino então que esteja desempregado? – perguntei

Desemsolto.

Como assim?

Alguém que é solto, que vive à solta, em liberdade. Ou seja, um desempregado do mundo não propriamente de mim.

Vive muito então?

Absolutamente, isto é coisas de poetas meu caro amigo não propriamente de portugueses. De quem fuma muito, claro está.

Apertei-lhe a mão com calma e ele perguntou-me as horas como se atrasado para um qualquer encontro estivesse. Não tenho horas, respondi. Ele deteve-se. Penteou ligeiramente o cabelo, apontou algo num papel que retirara do bolso das calças e saiu pela porta como se já não tivesse tempo, como se já não existisse.

Diálogo escrito para a 2ª edição da revista literária [sem] Equívocos.

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