Entrevista | Jaime Rocha: “O olhar do poeta é o primeiro e o último possível”

Jaime Rocha é um homem discreto. Quando nos aproximamos dele sentimos uma serenidade cálida, ao mesmo tempo inquieta, própria de quem trabalha os difíceis materiais da palavra. A sua voz é das mais vigorosas da literatura portuguesa contemporânea. Singular na plasticidade e no rigor lírico, para ele não há poema que não se abra como uma ferida, esse poema talhado à medida do desastre, farejando a cidade e o mar, a vida e a morte, e que nos faz quem sabe experimentar uma possibilidade inédita de existirmos.

“A cidade seduz-me tanto como me perturba e ameaça. É um real muito forte, perigoso, sujo, violento, onde se vive na iminência da morte, dentro de um perigo constante, sem saída, angustiante, que sufoca”

TAC: Numa conversa que tive oportunidade de partilhar com o Jaime na última edição do Raias Poéticas, confessava-me que se lhe apontassem uma arma à cabeça pedindo que se declarasse, poeta, dramaturgo ou romancista, responderia sem hesitar: poeta. É mesmo assim? Terá sempre esse olhar de poeta perante o mundo que lentamente desaba?

JR: O olhar do poeta é o primeiro e o último possível, após a tragédia, após a morte e a danificação do mundo, o morticínio humano, o genocídio e a agonia dos povos, restam poucas palavras no universo para serem escritas, lidas, ditas. Essas são as palavras deixadas ao poeta, porque ele sabe ler a vida que sobra de um modo único, singular, sabe descobrir o texto que ilustra a selvajaria humana, ou seja, o que a alma esconde, envergonhada.

TAC: E sabe à partida que o que escreve irá ser poesia? Como parte para o texto?

JR: Sei, apenas porque a poesia se insinua, contrariamente à prosa e ao teatro cujos processos de escrita podem ser pensados, reflectidos, manipulados. O texto poético parte de si mesmo, não sou eu que parto para ele, eu apenas lhe sigo a primeira pista, o caminho que me é indicado e que não sei de onde vem, que não entendo, nem procuro explicar. O poema é um ser vivo que se mexe por si mesmo, que desoculta, que descola qualquer coisa que está presa ao pensamento mais profundo e se quer soltar.

TAC: Afirma que o seu livro “Preparação para a Noite” é um registo poético mais seu, um regresso a um ambiente mais urbano. A cidade possui essa cadência fulgurante e sedutora do real?

JR: O meu livro “Preparação para a Noite“, publicado em 2017, na editora Relógio D’Água, de Lisboa, é um regresso à cidade, após uma tetralogia poética muito particular que atravessou uma década dedicada e inspirada praticamente ao mundo dos pré-rafaelitas ingleses, poetas e pintores do séc. XIX (Dante Gabriel Rossetti, Swinburn, Burne-Jones, William Morris, Millais, Elizabeth Siddal, entre outros). A “Preparação para a Noite” foi o retomar de um registo poético iniciado pelo meu livro “Do Extermínio”, publicado pela primeira vez em 1995. A cidade seduz-me tanto como me perturba e ameaça. É um real muito forte, perigoso, sujo, violento, onde se vive na iminência da morte, dentro de um perigo constante, sem saída, angustiante, que sufoca. Assim eu a vejo, no meio de alguma festa e de uma imensa liberdade, bem como de uma fulgurante beleza. Neste caldeirão urbano, descubro também os textos que dão forma ao meu teatro e aos meus romances (para além do texto narrativo ligado à minha memória de infância de que é exemplo a “Escola de Náufragos“, de 2016), aquilo que sobra da poesia e que é muito.

TAC: O filósofo Byung-Chul Han descreveu que “vivemos actualmente numa dissincronia, numa dispersão frenética que faz com que cada instante pareça igual ao outro”. Identifica este fenómeno nessa sua cidade poética? O poeta deve saber interpretar o seu tempo?

JR: Penso que essa dispersão frenética de que fala o filósofo é verdadeira, mas só aparentemente um instante é igual ao outro. Parece, mas apenas parece, não é e é isso que importa ao escritor, essa fenda, esse risco que divide os acontecimentos. Cabe-lhe a ele enquanto criador. Este fenómeno depende do olhar do poeta, ou seja, de um olhar de dentro para fora e não o seu contrário, porque um crime, uma zanga, um insulto, um abraço, um desastre é completamente diferente um do outro e um facto só à superfície é idêntico ao outro. Um grupo de mineiros soterrado numa mina, não é igual ao de um grupo de jovens presos numa gruta, embora pareça, para o cidadão comum, um mesmo tempo de observação e um mesmo conteúdo de perigo ou até na geografia do lugar idêntico. Dá a ideia de que o facto se repete. Ou num terramoto, num marmoto, numa onda gigante, numa guerra, pode haver a tendência de se desvalorizar porque já não é inédito. Assim como, duas mortes, vinte, duzentas, duas mil, pode significar o mesmo para quem recebe a notícia. O papel do poeta, do escritor é interpretar o acontecimento e inscrevê-lo no seu tempo.

“O sangue move-se, o poema move-se
e a ferida não sara nunca”

TAC: “As palavras inscrevem-se no poema como o sangue que corre de uma ferida.” Aproveito esta frase sua para fazer uma pequena confissão: das vezes que o ouvimos recitar consegue-se perceber a emoção com que lê os seus textos. Acha que a voz recitativa, esse poema-sonoro, ligado ao recitativo ditirâmbico e teatral também, é percorrer essa ferida, é talvez a melhor forma de comunicar o poema a alguém?

JR: Confesso que me perturba a leitura ao vivo da minha poesia para uma audiência. E percepciono a emoção crescente durante essa leitura, como se essa ferida se fosse reabrindo ao mesmo tempo que ouço a voz do poema. Penso que o poema possui uma memória enquanto objecto vivo e essa memória vem agora, na leitura, de fora para dentro, reabrir definitivamente essa ferida. Esse confronto das palavras com o autor é um desafio já que ele não é totalmente dono do texto que criou e o momento da leitura (quase sempre meses e meses após a sua escrita) aponta para uma nova versão e compreensão do poema. O sangue move-se, o poema move-se e a ferida não sara nunca.

TAC: Acredita nesses afectos, nesse “inscrever no vivo um principio de bondade” que Maria Gabriela Llansol tão bem falava, esse dar razão ao poeta?

JR: Acredito nesses afectos, mas a verdade do poeta nem sempre é a verdade do vivo e essa bondade de que a Llansol fala e que tem a ver com o seu olhar muito singular sobre a natureza, sobre o ser-vivo, é muitas vezes inscrita no poema como sendo o seu oposto, a (não) bondade do poeta, já que o autor elabora uma poética que está para além do que vê, sente ou ouve. Para mim, o poeta tem quase sempre razão, porque tem o poder de desocultar a palavra que está já inscrita na natureza. A bondade nasce dessa desocultação.

 “Gosto dessa linguagem cortante do quotidiano que os jovens poetas imprimem aos seus textos”

TAC: Há algum livro seu no qual goste de revisitar-se? E algum livro que esteja a escrever no momento?

JR: Sim, tenho particular apreço pelo meu livro de poemas “Do Extermínio” (1995) que é um livro que considero ser o momento da descoberta da minha palavra inicial, ou seja, de uma voz própria enquanto poeta (a minha primeira recolha de poemas data de 1970), um livro fundador a que chamei o Livro da Anunciação. Depois a minha “Zona de Caça” (2002), o Livro da Perseguição que termina com a “Necrophilia” (2010) e que fecha a Tetralogia da Assombração. No caso da prosa, volto muitas vezes à “A Loucura Branca” e no teatro, ao “O Construtor”. Neste momento, escrevo um novo livro de poemas, preparo um volume de prosa e um outro de teatro, este que reunirá as peças em que entra o meu personagem Ortov (personagem que vive angustiado na procura de uma linguagem e de uma saída para a sua existência) de que já foram publicadas algumas peças.

TAC: Sei que está muito próximo das novas gerações de poetas e até mesmo que as procura. Essa convivência é vital para si, para a sua escrita?

JR: Não diria que é vital porque escreverei mesmo sem essa convivência. Mas gosto desse confronto, de não gostar e de dizer, de ouvir e gostar, de discutir sobre a poesia e o seu futuro e de debater essa angústia que é o conflito de gerações. Mas sobretudo, gosto dessa linguagem cortante do quotidiano que os jovens poetas imprimem aos seus textos, muitíssimo diferente da minha. Há jovens poetas, excelentes, que admiro e eles sabem e isso é um conforto muito grande para mim. Existe uma partilha muito boa.

TAC: Para quem desconhece o Jaime é companheiro de uma das maiores romancistas em língua portuguesa, Hélia Correia. Como é partilhar essa vida-escrita? Habitam as obras de cada um para alimentar os seus próprios textos?

JR: Nós habitamos cada um na sua própria obra, com universos diferentes e linguagens diferentes. A Hélia Correia é mais romancista e eu mais poeta e dramaturgo. A nossa partilha é de leitura exigente um do outro, antes da publicação. Vamo-nos lendo à medida que a escrita avança, vamo-nos incentivando, mas somos implacáveis quanto à qualidade do texto. O que se passa é que nos admiramos um ao outro, no que somos e no que escrevemos. Não esquecer que escrevemos e nos conhecemos, se quiser, namoramos, há cinquenta anos.

TAC: Em 2017, como motivo da nomeação de Hélia Correia como “Escritora Galega Universal” pela AELGA (Associação de Escritores em língua Galega) o Jaime visitou a Galiza. Como foi essa experiência? Chegou a confessar-me que se surpreendeu com a calorosa recepção na cerimónia de entrega do prémio em Santiago de Compostela. Sentiu essa fraternidade por parte dos Galegos, essa irmandade?

JR: Nós gostamos os dois muito da Galiza e temos amigos lá, poetas, actores, músicos. A Hélia está traduzida e já participou em alguns encontros literários. É uma paixão nossa, pela língua, pela literatura, pelos lugares da Galiza. E o facto de a Hélia ser reconhecida (o Prémio e a calorosa recepção em Santiago é disso uma prova) e gostada nesse país com o qual ela faz uma forte ligação cultural ao seu mundo celta, ajuda a cimentar essa fraternidade, essa alegria.

Entrevista realizada por Tiago Alves Costa e publicada originalmente na Revista Palavra Comum.

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Jaime Rocha nasceu em 1949, na Nazaré, Portugal. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa. Viveu em França nos últimos anos da ditadura. Publicou o seu primeiro livro, “Melânquico” (poesia), em 1970. Tem editadas várias obras no domínio da poesia, da ficção e do teatro, na editora Relógio d’Água, Lisboa. Na poesia destaca-se “Os Que Vão Morrer”, 2000, “Zona de Caça”, 2002, “Do Extermínio”, 2003, “Lacrimatória”, 2005, “Necrophilia”, 2010, “Lâmina”, 2014 e “Preparação para a Noite”, 2017. Na prosa, os romances “A Loucura Branca”, 1990, “Os Dias de Um Excursionista”, 1996, “Anotação do Mal”, 2007, “A Rapariga Sem Carne”, 2012 e “Escola de Náufragos”, 2016. No teatro, destaca-se “O Construtor” e “O Terceiro Andar”, 1998, “Seis Mulheres Sob Escuta”, 1999, “Casa de Pássaros” e “O Jogo da Salamandra”, 2001, “Homem Branco-Homem Negro”, 2005, “O Mal de Ortov”, 2009 e “O Regresso de Ortov”, 2013.

Vencedor de prémios tais como: Grande Prémio APE de Teatro, 1998, com a peça “O Terceiro Andar”; Prémio Eixo Atlântico de Textos Dramáticos, 1999, com a peça “Seis Mulheres Sob Escuta”; Grande Prémio de Teatro SPA/Novo Grupo, 2004, com a peça “Homem Branco Homem Negro”; a peça “O Construtor” foi seleccionada para o Prémio Europeu de Teatro, 1994, Berlim; Prémio de Ficção do Pen Clube, 2008 e Prémio Ciranda, 2008, com o romance “Anotação do Mal”; Prémio de Poesia do Pen Clube, 2011, com o livro de poemas “Necrophilia”.

Fotografia de Jaime Rocha por José Lorvão.

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