Sara F. Costa sobre “Žižek vai ao ginásio”

O livro de poesia do Tiago começa com aquela cena do Fight Club em que o Brad Pitt incendeia o apartamento do Edward Norton e eu diria que esse é um excelente começo. O medo de perder a “vida-dinheiro”, isto é “Tudo aquilo que juntara enquanto se movia”. Para o autor, o cogito de Descarte pode ser resumido a “um parque industrial num domingo à tarde”. Vocês leram no título Žižek e pensaram logo que ia ser um livro pós-ideológico mas a ideologia destas páginas é mais cínica do que isso. Não vai ser tudo filosofia, se fosse apenas isso, seria demasiado previsível e o autor odeia “territórios configurados de tédio”, apesar de não me parecer que tenha encontrado outro tipo de territórios. Até a viagem à Grécia foi um enfado com os seus “monumentos de uma tragédia já muito cansada de ver Dinheiro-Sócrates-Platão”. De currículo na mão, o sujeito poético sabe que nunca vai dar em nada mas lembra-se dos tempos frenéticos de outros sujeitos poéticos ou não, mas iguais a si na sua condição pós-crise/ante-crise:

“Éramos tantos e corríamos parados comíamos / como um animal muito antes da digestão, / como esses turistas de cidades aumentadas”

Trata-se de um sujeito poético-efebo “à proa de um qualquer campeonato de dívidas por saldar”. Ao longo do livro, por vezes entusiasmo é muito e o sujeito manda o poema acalmar-se e o autor intervém para tentar que o poema compreenda a dimensão do mundo nesta época de millenials e “gostos” fascistas que vão lançando moedinhas a um poeta-estátua. Farta-se de viajar mas não tem a certeza se um dia chegará ao país que o habita. Vai tentando, aos dez milhões de palavras de cada vez. Passa por um vendedor de sofás que, pasme-se, já não sabe vender a posição de sentado, tal é a falta de empreendedorismo e capacidade de trabalhar sob pressão. Terá como destino tentar a sua sorte noutra área do cansaço. Há ainda o outro que entra pela porta e despe-se “desrespeitando a ordem do corpo” e deitando-se “como se não conhecesse a medida do sono”. O cansaço de uns será a fotografia de outros. Isto está tudo muito mau para os empregados por contra de outrem que limpam o pós aos objetos de ideologia sublime. Há no interior destas palavras um atentado como uma bomba mas enquanto é a poesia que explode, as notícias relatam:

“A mulher / que ontem foi capturada na porta do café Anda-Luz / sob suspeita de antecedentes terroristas / queria afinal captar / o sinal wi-fi”.

Entre desempregados que são pregos e poemas que estão soltos, o leitor é bem-vindo ao suicídio filosófico lúcido de Camus como uma ilusão consciente. A ideologia localizada no que fazemos e não no que sabemos. Encenada antes do seu reconhecimento, como os Aparelhos de Estado Ideológico de Althusser: a crença antes de crença. Mas o poeta, só porque está solto não escapa ao cinismo patológico. Lê quatro páginas do seu currículo e dois versos, enquanto a plateia ovaciona. E há correspondência entre poetas inimigos:

“O teu número de ISBN / é tão parecido com o meu”.

Žižek terá ido ao ginásio no imaginário do livro para se ver ao espelho e imiscuir-se na metáfora lacaniana. Isto porque a dimensão simbólica da linguagem é a do significante, na qual os elementos não têm existência, são constituídos em virtude de diferenças mútuas. O real surge como aquilo que está fora da linguagem: “é aquilo que resiste à simbolização” e, por isso, resiste à especulação filosófica, onde um significante pode ser substituído por outro significante.

Sejamos sérios, poema!

Faça-se, como nos apela Tiago, do vazio da página uma forma de existência antes que os outros nos tornem num objeto ideológico.

Publicado originalmente na revista Palavra Comum.

*

Sara F. Costa nasceu em 1987. Licenciou-se em Línguas e Culturais Orientais pela Universidade do Minho e tirou o mestrado em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin. A sua poesia tem vindo a ser galardoada em diversos certames literários. O seu último livro “A Transfiguração da Fome” obteve o Prémio Literário Internacional Glória de Sant’Anna para melhor obra de poesia publicada em países de língua portuguesa em 2018. Tem poemas traduzidos e publicados em mais de sete línguas em publicações literárias um pouco por todo o mundo. Foi convidada para vários festivais literários internacionais em países como Turquia, India e China. Faz crítica literária e traduz poesia chinesa para português. De momento, reside em Pequim onde coordena eventos literários no coletivo artístico internacional Spittoon. “Poética Não Oficial” é a sua primeira antologia de poesia chinesa traduzida publicada.

Autora

– A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos (Pé de Página editores, 2003); – Uma Devastação Inteligente (Atelier Editorial, 2008); – O Sono Extenso (Âncora Editora, 2012); – O Movimento Impróprio do Mundo (Âncora Editora, 2016) – A Transfiguração da Fome (Editora Labirinto, 2018)

Tradução e organização

– Poética Não Oficial – Poesia Chinesa Contemporânea, Edição bilingue (Editora Labirinto, 2020)

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