Três objectivos de um escritor

Confesso-vos que o meu primeiro objectivo como escritor foi melhorar o meu tipo de letra, e essa secreta intenção de imitar uma escritora famosa cujo tipo de letra invejava. Em parte, alcancei-o sem nunca me libertar, desde logo, de um ligeiro traço de infância na minha escrita, uma irregular tendência para a loucura, um canhestro jeito para entortar as palavras. Entretanto, ao sair de casa para visitar uma livraria, a humidade e o frio tinham sido uma constante de dias cinzentos e fechados, pensei que o meu segundo objectivo talvez fosse ter novamente um primeiro objectivo, cujo objectivo era irrelevante, o importante seria procurar incessantemente esse logro como se nunca tivesse almejado nada na vida. Já dentro da livraria e sem saber muito bem o que fazer dentro desta, deduzi então que o meu terceiro objectivo seria saltar a pés juntos, o mais alto possível e atingir assim o chão com um imponente impacto que fizesse abalar o mundo. Na secção dos dez mais vendidos, apercebi-me que este derradeiro objectivo iria desvelar, por um lado, a minha débil capacidade física, e, por outro, a minha vontade de deixar a escrita de uma vez.

 Naquele momento, surge diante de mim um leitor que sonhava ser romancista e que ao passar com um texto às costas, afirmou que o mundo tinha sido abalado por um impacto de origem desconhecida e eu, enquanto enfiava uma das mãos no bolso direito das calças, olhei os dez livros mais vendidos e comecei a pensar em formas de aumentar o potencial do meu último objectivo. Decidi então que visitaria todos os dias a livraria, e sem que ninguém me visse, colocaria o meu vigésimo segundo livro editado até a data, diante de todos os outros livros da secção dos dez mais vendidos. Sim. O livro estaria bem visível aos olhos dos distraídos leitores e eu repetiria esta rotina durante semanas, meses, até conseguir o meu terceiro objectivo. Com a certeza que o mundo seria abalado várias vezes com impactos desconhecidos, com leitores absortos que sonhariam ser romancistas e que, nessa mesma livraria, na sua secção dos dez mais vendidos, eu continuaria a ver o meu vigésimo segundo livro bem evidente aos olhos de todos. Mas como a realidade é do tamanho daquilo que imaginamos, um dia ao entrar altivo na livraria reparo que o meu livro estava no seu sítio como planeado, mas sem qualquer outro livro por perto. Aparentemente calmo e discreto, dou dois volteios pelas estantes do espaço morto, mas a livraria estava vazia. Recuei, ligeiro sobre mim até dar de frente uma vez mais com o meu livro na secção dos dez mais vendidos, bem visível, mas tão solitário como o mundo. Tentei manter-me inteiro, não conseguindo, no entanto, esconder um ligeiro suor nas minhas leves mãos, um tremor ligeiro que se alastrava pelo corpo. Ousei procurar o livreiro que depois de umas quantas voltas não fui capaz de encontrar.  A livraria estava vazia. Peguei, nervoso, no meu livro, folhei-o página sim, página não, 178 ao todo mais o posfácio de que eu nunca gostara e constatei que tinha as páginas em branco. Saí a correr pela livraria fora, mas não havia mundo. Peguei desesperadamente no meu caderno de notas, e fui incapaz de escrever. Olhei o gato negro que fugidio ali passava e sem uma aparente razão comecei a intuir uma súbita e ignota paz que, vos confesso, até hoje me serve de terapia para pensar em novos objectivos e esvaziar livrarias.

Texto publicado originalmente no número 7 da Revista Oresteia.

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