O homem que se dedicava a ser despedido

Ganhara tanto dinheiro com os seus próprios despedimentos que passou a dedicar-se a tempo inteiro a ser despedido. Sim, era um trabalho rentável. E sempre que o chamavam para uma entrevista de emprego, o despedimento era o que mais real e concreto tinha na sua mente. Claro que este era um assunto que guardava só para ele, como um indesvendável segredo e não dava ao entrevistador, posteriormente aos responsáveis das empresas, qualquer pista que o levassem a desconfiar sequer que esse era o seu maior objectivo: ser despedido. Aliás, desvelava todas as suas melhores qualidades como bom profissional do sector: uma excelente capacidade para trabalhar em equipa, elevado espírito de liderança, empreendedorismo, dois masters internacionais, uma pós-graduação lograda com nota de mérito, capacidade para suportar altos níveis de pressão e de se adaptar a vários tipos de funções e ambientes de trabalho. Obviamente, que após expor com rigor todos os seus objetivos e qualidades: era contratado. Mas, como poderia ele aguentar uma vida inteira a fazer o mesmo? Entrar e sair todos os dias pela mesma porta, olhar as vistas da rotineira e funesta janela, tomar o café amargo com açúcar às dez da manhã com o colega mais detestável do mundo. Não obstante, reconhecia que era por vezes difícil ser despedido; não era tarefa que desempenhara logo no primeiro dia. Não. Deixava os dias decorrerem, que os companheiros e as chefias se atraíssem pela sua capacidade de trabalho, pelas suas visionárias ideias. Dava até a entender que gostaria de subir de posto; sim, que podia tornar-se num activo de grande valor, alguém com qualidades de liderança para tomar as rédeas do futuro…e quando já ninguém esperava, para espanto de todos, provocava o despedimento. E existiam vários mecanismos para o conseguir: um conflito súbito com um companheiro invejoso, uma doença inesperada de um familiar, uma acusação insultuosa de um cliente ou até mesmo o abandono súbito daquele entusiasmo inicial, tornando-se num capital humano indesejável e incómodo para a empresa. E tudo isto após longas noites a ler as bases da sua contratação, articulo por artículo, lei por lei, e a ouvir com atenção os conselhos responsáveis dos membros do sindicato que, desde logo, eram quase sempre a seu favor. De um dia para o outro: estava despedido. E com dinheiro no bolso mais férias pagas.

Ora, fora este o rumo da sua vida até ao dia que, sem uma explicação plausível, passou a gostar do trabalho para o qual o contrataram de novo. Era um trabalho como outro qualquer onde uma vez mais todas as suas qualidades vieram ao de cima e foram rapidamente reconhecidas pelos responsáveis. Contudo, traído pelas suas próprias artimanhas e num comportamento que jamais esperaria de si mesmo, foi gostando das suas funções, dos novos colegas de trabalho, para sua própria surpresa, da janela funesta de diariamente, do café amargo das dez da manhã. Os dias foram passando e o trabalho era o mais convicto e real que ele tinha agora na sua vida, podia considerar inclusive que passara a amar o trabalho. Não contava era com aquela hora. Uma hora fatídica e inesquecível, quando os responsáveis da empresa, com os seus fatos negros e graves, entraram pela porta do seu escritório; cumprimentaram-no solenemente, tiveram o descaramento de perguntar-lhe como se sentia, se inclusive podia confirmar a reunião agendada para sexta-feira e se o seu nome podia ser incluído na lista do jantar de Natal, já que havia muitos colaboradores a solicitá-lo e o restaurante tinha lugares marcados; de repente, como se tudo tivesse um timming, uma matemática, como se houvesse uma narrativa previamente elaborada, voltaram-lhe os lancinantes olhos e entre duas palavras disseram o que ele jamais esperaria ouvir: está despedido.

Publicado originalmente na edição número 22 da revista em papel Sem Equívocos.

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  1. Júlia Miguel diz:

    Mais uma excelente abordagem de um real – e também das leituras da imagem.
    Obrigada, Caríssimo Tiago Alves Costa. Até breve, aqui!

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