“O escárnio e a desorganização mundial dos poetas”. Resenha de Ronaldo Costa Fernandes a “Žižek vai ao ginásio” no jornal da Associação Nacional de Escritores Brasileiros

Estou diante de um livro que me desconserta. O poeta português Tiago Alves Costa, morando em Barcelona, depois de passar uma temporada em A Coruña, publicou em 2020, por uma editora brasileira de Juiz de Fora, um pequeno grande livro Zizek Vai ao Ginásio (ed. Macondo, 122 p.). Antes, já o publicara, em 2019, pela editora portuguesa Através. O primeiro traço diferencial na poesia de Tiago é colocar o “eu lírico” diante de si mesmo como objeto, buscando sempre a contradição, pasmo, com dose grande de ironia e sarcasmo. Uma das suas boas utilizações do humor, algumas vezes negro, confere aos poemas uma dose de despojamento e antilirismo. Ou mesmo anticlímax. Ou ainda antiprotagonismo. O antilirismo é uma proteção contra o lirismo desbordado ou comum. O poeta foge do registro emotivo e disfuncional, coloca-se diante do absurdo das situações sem que cometa o deslize da pena ou enveredar pela dição melosa. Não há em Tiago nenhum traço de melodrama ou edulcoramento sentimentalista.  

Eis uma pequena amostra: 

“E as lágrimas eram tantas… 

    e o desespero era tanto 

que num momento de luz 

decidi montar um Negócio de Lágrimas 

     para superar a crise. 

Um dia depois  

encontrei alguém que tinha tanto ou mais 

       desespero 

a mesma ideia        as mesmas lágrimas 

e montado o franchising 

        do negócio…” (p.41) 

O “eu lírico” nunca é lamentoso, confessional ou solipsista. Aqui ocorre a ambiguidade e o distanciamento entre o sujeito e o objeto que são os mesmos do enunciado e do emissor. O outro é ele mesmo numa perspectiva dilacerante, acusadora e mordaz. Principalmente nos poemas narrativos em que cria uma linha tênue entre a prosa do conto e o poema em prosa – um poema em prosa bem diverso do que conhecemos como poema em prosa – colocando o personagem como objeto do ridículo e do espanto de existir num mundo disfuncional.  

O mundo moderno das máquinas, dos negócios, dos “fetiches da mercadoria” estão apresentados na poesia desse poeta português como pano de fundo e ao mesmo tempo como um espetáculo do horror contemporâneo, uma arqueologia do frágil e do medo, uma fratura do imaginário e da permanência do imanente e do precário. O universo do fragmentário e do imponderável é um dos temas centrais da sua poesia. Um modo incômodo de estar no mundo. Há uma coetaneidade com a poesia contemporânea norte-americana que busca o primado da descrição de ações cotidianas e do espetáculo do nada e do frágil, do pequeno e ordinário, da rotina e do dia a dia das grandes cidades com seus tentáculos, tentações e mecanismos de maquinização do humano.    

Certo acento para o “ensaísmo”, não que busque analisar algo ou estudar o que quer que seja, contribui para um perfil mais distanciado dos movimentos poéticos do “eu” confessional. Chamo de “ensaísmo”, no bom sentido, a prática de exercitar no poema o pensamento dúbio, contraditório, quase como nos melhores textos filosóficos que trabalham com o paradoxo e o aparente nonsense das suas frases. Geralmente quando os poetas se põem a filosofar no mais das vezes incorrem em má produção. Não é o caso de Tiago que retira da reflexão contraditória e dos temas da atualidade o melhor desafio e complexidade, o absurdo das afirmações e seu contrário, o uso de situações ou pensamentos arrevesados que nos colocam diante do ridículo de determinada situação e da incoerência do ato social.  

A escritura e a posição social do escritor, principalmente o poeta, está presente aqui de forma crítica. A sobrevivência do poeta como ser social e a necessidade de ganhar a vida que não seja com a literatura faz Tiago descarnar a idealidade da produção literária. É muito comum – diria com uma frequência que beira a exaustão – os poetas se referirem à literatura como algo divino e que as palavras salvam o poeta, que a literatura é uma expressão nobre e que escrever é exaltar o mais sublime da humanidade. A metapoesia, junto com a exaltação do amor e do corpo da/do amada/amado, são temas altamente recorrentes na produção literária desde a Antiguidade. Em Tiago, não. Geralmente o poeta é um ser ridículo, sua necessidade de ganhar a vida é um escárnio e no mais das vezes a tentativa de mostrar-se socialmente acaba em frustração e num ato de desprezo. O poeta é recorrentemente posto de cheque e colocado em situações de absoluto escárnio. Também deste ponto de vista a produção tiaguiana se mostra divergente do comum e corrente da estilística e da estética reiterativa dos poetas e seus egos. Aqui a metaliteratura é uma expressão personalíssima, distinta sobremaneira das reincidências temáticas que redundantemente ocorrem na poesia em qualquer língua.  

O escárnio, a dessacralização da poesia e do poeta, o ridículo das situações da vida literária, a necessidade de o poeta trabalhar em algo dito útil, fabril e que lhe renda dinheiro são as molas mestras da poesia de Tiago. A constante tentativa de o poeta mostrar-se como um ser humano mais do que normal, pagador de contas, às vezes desempregado, sem entender a razão de escrever ou de ser colocado numa posição superior aos demais humanos, transforma a poesia de Tiago não apenas como uma Declaração dos Nenhuns Direitos do Poeta, emanada quem sabe por uma Desorganização Mundial dos Poetas sem utilidade pública, como também um grito de socorro ao mostrar a precariedade, contradição, incongruência, dualidade e ambiguidade da condição desumana do estar num mundo prático. É uma poesia densa, multifacetada, demolidora e que ao mesmo tempo reconstrói nossa fé no ato de protestar, imolar-se, desconstruir para reafirmar a permanência do humano entre tantos atos que nos tentam eliminar da república dos homens.  

Ronaldo Costa Fernandes (São Luís, 1952) é poeta, romancista e ensaísta. Publicou mais de vinte livros em diferentes géneros, entre eles os volumes de poesia Estrangeiro (1997), A máquina das mãos (2009), Memória dos porcos (2012), Matadouro de vozes (2018) e A invenção do passado (2022). A sua obra recebeu distinções como o Prémio Casa de las Américas, o Prémio da Associação Paulista dos Críticos de Arte e o Prémio ABL de Poesia. Ocupa a cadeira 31 da Academia Maranhense de Letras e reside atualmente em Barcelona.

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  1. Júlia Miguel's avatar Júlia Miguel diz:

    Muito bom, Tiago Alves Costa!

    Excerto sobre uma actualidade escondida em olhares quase sem reflexo, procurando-se em negócios de sobre / vivência divertida…

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