O homem que era bom a ficar inclinado

Um dia, um homem tomou uma decisão que mudaria o rumo do mundo: inclinou-se. Ele disse: “Inclino-me para tentar ver as coisas de um ângulo diferente, para desvendar a ilusão a que o mundo está submetido.” Não apenas curvou um pouco a cabeça, mas todo o corpo, abandonando a sua cadeia de valores, tudo aquilo que aprendera e que era para si uma verdade absoluta. Assim, o homem começou a ser reconhecido pela sua inclinação, pela sua forma peculiar de ver o mundo. As pessoas olhavam para ele com estranheza e perguntavam: “Porque se inclina tanto?” Mas o homem, sempre endireitando-se quando alguém se dirigia a ele, respondia simplesmente: “Inclino-me para obter uma perspetiva diferente.” E o homem continuou a inclinar-se cada vez mais. As pessoas também se preocupavam com ele, perguntando se não estaria a ter um grave problema nas costas. “Nunca consultou um especialista em ortopedia?”, indagavam. Mas o homem não se importava com as preocupações alheias. Ele sabia que o problema não estava nas costas dele, mas na forma como as pessoas viam o mundo. “O mundo está curvado”, dizia ele. “O mundo tem um grave problema de coluna.” No entanto, as pessoas pareciam ignorá-lo ou até considerá-lo mentalmente perturbado. E assim, o homem continuou a inclinar-se, cada vez mais. Até que um dia, alguém aproximou-se dele e, num gesto de empatia ou curiosidade, também se inclinou. Os dois ficaram ali, inclinados, a observar o mundo. O homem, que era hábil a manter-se inclinado, perguntou: “Consegue ver onde está a ilusão?” A pessoa apenas encolheu os ombros, resignada, como se nada de novo tivesse visto. O homem explicou-lhe que não bastava alcançar a verdade, era preciso saber interpretá-la, inclinar-se para estar preparado para ver a ilusão do mundo. No entanto, a pessoa finalmente endireitou-se e foi embora. E assim os dias e anos passaram, até que, subitamente, o homem inclinou-se tanto que caiu. Não se sabe se foi de espanto ou devido a um problema na coluna. As pessoas tentaram ajudá-lo, aproximaram-se para endireitá-lo, mas era tarde demais. O mundo já não era o mesmo, e o homem, que era bom a manter-se inclinado, pereceu sem saber disso.

Texto publicado na 5ª edição revista moçambicana “Kilimar” e no número 28 da Revista Sem Equívocos.

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