Revista de Poesia e Tradução – DiVersos nº38

É com alegria que anuncio a minha presença no número 38 da prestigiada revista DiVersos – Poesia e Tradução, uma publicação com longa dedicação à poesia contemporânea e à arte da tradução, cujo o editor é José Carlos Marques. Este número, dedicado ao grande Dante Milano, reúne um conjunto notável de autores e tradutores de…

Não é Assim Tão Alto Como Dizem

Todas as manhãs, ele segue um ritual quase inalterado. Assim que as portas da biblioteca se abrem, entra com a calma de quem conhece cada canto daquele espaço. Dirige-se diretamente à secção de literatura comparada, o seu refúgio diário. Ao chegar, passa os olhos pelas estantes e, quase sem hesitar, escolhe um livro escrito por…

“O Homem que Apanhava Flores” Traduzido para Turco

Acaba de ser publicada na Turquia, na revista literária Sanjurjo, uma tradução para turco do meu poema “O homem que apanhava flores“. É uma honra ver este trabalho ganhar vida noutra língua e chegar a novos leitores. Um enorme agradecimento ao poeta e editor Mustafa Seyfi pela excelente tradução e pela cuidada e belíssima edição…

Alugar o Destino

Confiei inteiramente na influência do destino. Era um hábito sagrado: sempre que havia uma oportunidade e o tempo permitia, lá estava eu, empenhado em zelar por ele. Regava as plantas com meticulosidade, atento a cada folha que necessitava de um pouco mais de água, reparava uma telha solta que ameaçava a sua integridade, e fortalecia…

Vender o silêncio (Seguido de instruções sobre como usar o silêncio)

O ruído no mundo era tão intenso que encontrar um local silencioso tornara-se uma tarefa quase impossível. Foi então que várias empresas surgiram, ansiosas por explorar o negócio do silêncio. Cada uma delas estabelecia os seus próprios preços, sendo que alguns, naturalmente mais elevados, prometiam um silêncio de qualidade notável. Aquilo que anteriormente fora subestimado…

Devolver a realidade

A empresa de transporte tocou à campainha. – Era para entregar a realidade. Assim que o transportador me entregou a caixa em mãos, abri-a e deparei-me com a realidade muito bem embrulhada, envolvida em várias camadas de papel. Isso fez com que o processo de desembrulhar a encomenda demorasse um pouco mais do que o…

O homem que era bom a ficar inclinado

Um dia, um homem tomou uma decisão que mudaria o rumo do mundo: inclinou-se. Ele disse: “Inclino-me para tentar ver as coisas de um ângulo diferente, para desvendar a ilusão a que o mundo está submetido.” Não apenas curvou um pouco a cabeça, mas todo o corpo, abandonando a sua cadeia de valores, tudo aquilo…

Pessoas que eram boas a ficar distantes

As roupas entraram na loja e começaram a experimentar os clientes. Eu permaneci a observar aquelas pessoas que outrora foram boas a ficar distantes, agora transformadas em manequins vivos, de todas as cores, modelos e feitios imagináveis. Algumas pareciam ser artigos de saldos ou remanescentes da coleção primavera-verão. As que não se adequavam eram implacavelmente…

Três objectivos de um escritor

Confesso-vos que o meu primeiro objectivo como escritor foi melhorar o meu tipo de letra, e essa secreta intenção de imitar uma escritora famosa cujo tipo de letra invejava. Em parte, alcancei-o sem nunca me libertar, desde logo, de um ligeiro traço de infância na minha escrita, uma irregular tendência para a loucura, um canhestro…

World Anthology of Border Poetry: Blurred Political (Canadá)

Acaba de sair a “World Anthology of Border Poetry: Blurred Political (Canadá)” que inclui uma tradução inglesa de um poema da minha autoria. O poema intitula-se “É a noite doutor, é a noite que dói” e faz parte do livro “Mecanismo de Emergência”. A antologia inclui 30 poetas de diversos países e está associada à…

Um tempo sem idade

O que nos espera nos lugares? Um braço lá no alto sinalizando a altura do mundo. Um amigo que nos aguarda há pelo menos 1000 anos. Caminhar sob a superfície evitada das dúvidas e uma cartografia abrir-se sobre nós: Ti falame portugues. Nós que julgamos conhecer o mundo. Que julgávamos conhecer as nossas pernas. O…

3 poemas na revista brasileira “Ruído Manifesto”

PALAVRA-POETA-DISTÚRBIO O poeta avisou: Antes de me conhecerem, devem primeiro conhecer as minhas palavras. Então as palavras entraram na sala e o poeta ficou do lado de fora à espera. No seu interior as palavras começaram a desconstruir o que havia à sua volta. Aos saltos, sobre as mesas, gritando, despindo-se com esgares de loucura…