O crítico de sonhos

O que faço na vida? Durmo. E olhe: durmo muito, e não imagina o quanto. Não me olhe assim. Durmo muito e sonho: à noite, de dia, fins de semanas largos, intervalos monótonos de um domingo sentado… Sim, durmo tanto que, olhe – moveu o braço num gesto largo – tornei-me num especialista, um especialista em sonhos…um homem com sono, conhecimento, competência e cansaço, tanto cansaço. Não me olhe assim. Tornei-me num especialista capaz de avaliar a estrutura real de cada sonho, a sua inexorabilidade, as possibilidades dos seus territórios, as suas linhas de fuga a desfavor da avareza de espírito, do mundo…um especialista, que desde logo, e depois de uma longa noite, defende com convicção e critério a sua especialidade. Se eu ganho algo com isso? Ganho muito. Porque há quem seja especial e quem trabalhe a especialidade. Eu ganho muito. Como não haveria de ganhar? – remexeu os papéis que tinha na sua frente e continuou –. Aliás, fique sabendo que fui um grande estudioso das gerações antigas, as grandes gerações de sonhadores, gente que dormia muito e alucinava ainda mais, gente que idealizou, inventou e sobretudo: parou para sonhar!

Sonhar é para quem tem dinheiro.

Sim, para quem tem muito dinheiro.

E por isso deixe-me que lhe diga que gente como essa hoje não existe. Gente com essa fulgurante forma de vida hoje não temos, não houve continuidade prática nas actuais gerações, e não estarei a mentir se lhe disser que nos dias de hoje sonhar não é para qualquer um, sonhar, é para quem tem sono, para quem, deixa-me dizer-lhe com toda a franqueza, para quem tem dinheiro. Sim, para quem tem muito dinheiro! – ficou a olhar-me muito seriamente – Para quem tem esse luxo de se cansar sem obrigações e fruir como um rei de si mesmo, um rei que vagueia solitário sobre as cavernas do silêncio – silenciou-se por uns segundos e perdeu o seu olhar num ponto vago –. E não me peça para explicar melhor. Não me peça porque nem eu me saberei explicar.

Se se sonha pouco? Dorme-se mal. Mas o problema nem é esse, o problema é que hoje não há tempo para dormir, não há tempo para sentir cansaço. As vidas decorrem sob uma absoluta dispersão temporal e isso faz com que cada instante pareça igual ao outro e não exista nem ritmo, nem um rumo que confira significado às noites. Não me olhe assim. Sim, durmo muito. E não imagina o quanto.

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foto por Fausto Luna

Ficamos os dois em silêncio. Eu a olhar aquele seu rosto cansado de felicidade, próprio de uma criança sem nome. E ele, o crítico de sonhos, a remexer nos seus papéis como se ainda faltasse algo para dizer. Quando de repente bateram à porta para informar que a hora do sono tinha terminado, despertamos, cumprimentamo-nos e saímos da sala como se qualquer sonho fosse ainda possível.

texto publicado na 7ª edição da revista “Sem Equívocos”.

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